Cosmética e cosmecêuticos: a polêmica permanente

A pele é o maior órgão do corpo humano, contendo inúmeros tipos de células, centenas de elementos químicos e várias estruturas diferenciadas que, em conjunto, são responsáveis por funções de proteção e pela homeostase do organismo. A pele também é reconhecida como um ativo órgão do sistema imunológico, interagindo com o sistema endócrino e o neural. Além disso, a pele reflete a aparência do indivíduo e vai, indiscutivelmente, influenciar sua auto-estima e, consequentemente, seus comportamentos biofísico e social. De maneira geral, a maioria dos especialistas concorda que o cosmético não poderia provocar mudanças fisiológicas na pele, servindo somente como mantenedor de suas boas condições.
Alguns produtos cosméticos estão relacionados às funções decorativas e protetoras, como esmaltes, perfumes, batons, limpadores, filtros solares, entre outros. Observa-se que, em algum momento de sua ação, ocorrem mudanças fisiológicas na pele. No caso do sabonete, a limpeza promove desengorduramento, que persiste por alguns instantes durante os quais acontece modificação fisiológica, com a diminuição do manto hidrolipídico.
Hoje, temos visto diversos produtos chamados de cosmecêuticos, principalmente na área dos hidratantes e produtos antienvelhecimento. Podemos até dizer que o conceito de cosmecêutico nasce, praticamente, com a redescoberta dos alfa-hidróxi-ácidos, utilizados há muitos anos e que agora voltam a ocupar espaço importante no tratamento da pele envelhecida.
O modo de penetração de um cosmético não é diferente do de uma medicação. É necessária a realização de pesquisa médica e farmacológica para essa análise, com o uso de recursos como: marcadores, microscopia eletrônica, modelos in vitro e in vivo. Isso tudo deve ser feito para acompanhar o trajeto do produto com suas ações químicas e seus desdobramentos, desde sua entrada na camada córnea até a profundidade que ele possa atingir.
Por outro lado, à medida que são utilizados em larga escala, esses produtos com maior potencial de ação aumentam os riscos de efeitos colaterais e complicações. Isso implica que todos os grupos de pessoas relacionados à manufatura e à venda desses produtos devem estar informados a respeito desses riscos. É necessário enfatizar que o uso de cosmecêuticos demanda melhor preparação dos profissionais relacionados à sua manufatura e venda, uma vez que o grupo de pessoas que os utilizarão é muito grande.
O cosmecêutico deveria ser acompanhado de bula, com a especificação exata do seu conteúdo, de seu modo de utilização e de suas possíveis interações com outros medicamentos. A utilização, por exemplo, do ácido glicólico por duas vezes ao dia, em peles mais secas e sensíveis, pode promover avermelhamento e certo grau de inflamação. Como ocorre a modificação e o afinamento da camada córnea, provocados pela maioria dos alfa-hidróxi-ácidos, é necessário haver maior proteção em relação ao sol, assim como se deve ter maior cuidado com o uso de outros produtos, principalmente de medicamentos. A pele afinada por ácidos absorve outras substâncias com maior facilidade.
O produto cosmecêutico deverá ter muitas indicações, como a associação de filtros solares a vitaminas antioxidantes e a princípios hidratantes. É recomendado o uso de hidratante e de filtro solar no dia a dia. A associação desses produtos a princípios antioxidantes potencializa a proteção da pele em relação à radiação ultravioleta, tornando-o um produto com várias utilidades.
A utilização da nanosfera e de ceramidas também melhora o potencial de ação dos cremes hidratantes, antienvelhecimento e protetores. A utilização desses produtos foi possível graças ao desenvolvimento de tecnologias avançadas para produzir ativos encapsulados e de liberação lenta.
Não podem ser tolerados conceitos fantasiosos sobre respiração da pele, poros abertos, raízes capilares encharcadas, entre outros. O uso dos cosmecêuticos terá de ser acompanhado da competência e da responsabilidade que são exigidas no processo de produção de produtos com ação específica para a pele.
Em nosso país, ainda é comum a indicação de medicação feita boca a boca, mesmo para problemas mais graves. É frequente a troca de receitas de remédios para o fígado, contra a pressão alta, a gastrite. Naturalmente, no que se refere a produtos de uso tópico, isso também ocorre e de forma mais intensa. Cabe aos especialistas alertarem os consumidores em relação aos perigos, pois os cosmecêuticos não são simples cremes emolientes. Não se pode usar esse tipo de produto – que em boa parte dos casos é manipulado mediante receita médica, extrapolando os limites da categoria de cosméticos – sem a indicação adequada.
A realidade é que, a cada dia, surgem novos produtos que podem ser caracterizados como cosméticos ativos. É papel de todos – pesquisadores, indústria, revendedores, especialistas médicos e não médicos, além dos consumidores – conscientizarem-se de que cada desafio é acompanhado de novas demandas de conhecimento e responsabilidades.
Fonte:  http://www.cosmeticsonline.com.br/2011 

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